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Texto Original

O texto original sobre a Bandúrria, em asturiano.
El testu orixinal sobre la Bandurria, n’asturianu.

 

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Ouvir Bandúrria
Alguns excertos de música de Bandúrria, em mp3, por Daniel Garcia de la Cuesta:

Dami un besu (1.4mb )


Valsiao (832kb)
 
Vengo de Moler (1.1mb)

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Instrumentos medievais
Instrumentsmedievaux.org: 
site francês sobre instrumentos medievais de
todo o tipo.
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Asturies.com
Mais sobre as Astúrias: Língua, Geografia, Cultura, Notícias, História, Música, etc.
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Bandúrria: 
As Astúrias Desconhecidas
por Daniel Garcia de la Cuesta



Nas Astúrias, uma pequena comunidade autónoma no norte de Espanha, dá-se hoje uma enorme importância às antigas práticas rurais para a definição de uma identidade Asturiana. Isso é particularmente visível no caso dos instrumentos musicais: hoje, quase todos conhecem as Astúrias pelos seus gaiteiros, por exemplo. No processo de recuperação de muitos instrumentos, que se tornam mais atractivos ou populares para satisfazer pretensões identitárias variadas, alguns são abandonados e caem no esquecimento. 
É o caso da Bandúrria, um pequeno instrumento de cordas, que à semelhança das sanfonas ou gaitas-de-foles, emite uma nota pedal contínua.
As características deste instrumento, quase perdido, são muito interessantes (apresenta algumas semelhanças com alguns instrumentos medievais, como a Viela, a Rabeca ou o Rabel). Das Astúrias, o músico e investigador Daniel Garcia de la Cuesta dá-nos conta da recuperação recente deste instrumento...


Apesar da passagem do tempo e do desaparecimento das pessoas mais velhas que são as transmissoras da tradição, graças ao trabalho de campo, nas Astúrias é hoje possível deparar com autênticos achados, que nos reportam, em certas ocasiões, para os tempos medievais. É o caso de um instrumento musical de corda, chamado Bandúrria.
No dia 17 de Outubro de 1998 teve lugar em Uviéu 1, dentro da programação do evento “Les Mañanes del Arquiolóxicu”, uma conversa na que se discutiu informacão sobre as investigações em redor da Bandúrria, instrumento do qual o museu possui dois exemplares, graças à doação da colecção de Manuel González-Longoria Leal, Marquês de Rodriga, no ano de 1951 e que até agora figuram no catálogo do museu como “Rabéis” e de origem desconhecida.

Ainda que no início deste século o etnógrafo musical Eduardo Martínez Torner tenha feito algum comentário sobre este tipo de instrumentos nas Astúrias, a recolha de dados começou em meados dos anos setenta, através do trabalho de grupos de investigação etnográfica, como os “Los Urogallos”, de Uviéu e sobretudo, de Manolo S. López, de “La Quintana”, de Xixón 2, continuando até meados dos anos oitenta, sobreveio todavía um período em que o instrumento caiu no esquecimento e quase desapareceu. 
Retomei este tema de trabalho e consegui recolher dados que trazem mais informação sobre a utilização da Bandúrria.

A investigação fez-se no concelho de Casu e sobretudo na aldeia de Caliao e noutras povoações dos arredores. Em Coballes viveu um dos melhores “bandurrierus”, David Caballín Traviesas. Graças às gravações que se fizeram, conservamos e conhecemos parte do seu repertório musical, os toques, ritmos, melodias e o seu uso dentro da tradição. Hoje em dia, não resta nenhuma pessoa mais idosa com quem se possa aprender a tocar. 

A Bandúrria

A Bandúrria é um instrumento de cordas. Os modelos encontrados, feitos nas Astúrias, têm medidas que variam entre 50 a 60 centímetros de comprimento, por 15 a 20 de largura e 6 a 8 de altura; as paredes laterais têm entre 6 a 8 milímetros e são feitos de uma só peça de madeira, que pode ser de plátano, cerejeira, etc. 
Tem uma forma de “oito” irregular e leva numa extremidade um braço, onde se tocam as cordas. Não possui trastes. Tem três cordas de tripa; diz-se que de galinha soam melhor, embora também possam ser de cordeiro.
As cordas estão fixas, na parte de baixo, a uma peça de madeira ou osso chamado “Restriellu”, que é uma autêntica obra de arte, na maioria dos casos. O “Restriellu”, é atado com um bocado de corda de tripa a uma saliência do próprio instrumento que sobressai na parte inferior.


Elementos de uma Bandúrria; note-se o tampo em pele.

As cordas são esticadas com umas peças cónicas de madeira chamadas “Tornos”que estão colocados na parte superior (o correspondente às cravelhas de um violino, por exemplo). Esta parte, nos modelos mais antigos, tem forma de foice, e noutros casos assemelha-se a uma voluta de um violino. O tampo na parte superior do instrumento é de pele de cabrito esticada, fixa com uns cravos de madeira, chamados também de “tornos”; nos anos mais recentes substituíram-se por pequenos pregos metálicos.
As cordas assentam sobre uma pequena peça de madeira chamada “Caballu” (correspondente a um cavalete) que é a que transmite a vibração à pele do tampo e daí para a caixa de ressonância. Não há nenhuma peça no interior.

Exemplo de um "restriellu", magnificamente trabalhado.

A pele tem três ou quatro buracos, para que saia o som: geralmente dois, próximos da parte do “Restriellu” e um, perto das cordas.
Na parte de trás, todos os modelos encontrados são planos e possuem entalhes, ou nota-se a tentativa de fazê-los, com figuras geométricas, ziguezagueados, rosetas, cruzes, caras, corações e em alguns, as iniciais do construtor ou do dono, tudo ao estilo da decoracão tradicional asturiana encontrada em movéis, ferramentas e "horros" (espigueiros asturianos) e que nos faz evocar um passado medieval só de vê-lo.

O som produz-se friccionando as cordas com um “Rabil” ou “Cayau”, uma peça de madeira com a forma de um arco, feito com um ramo ou um raiz de uma árvore, no qual se atam nas extremidades um feixe de pêlos de cauda de cavalo (diz-se habitualmente que de égua não servem para o efeito, porque ao urinar para trás, o animal danifica os pêlos da cauda e em resultado, deterioram-se e partem-se rapidamente). A tensão deste feixe faz-se à mão, ao gosto do “bandurrieru”. Estes feixes ou “serdes” passam-se por resina, para que friccionem bem as cordas. As três cordas friccionam-se e soam ao mesmo tempo, porque o “Caballu” é plano.

Iluminura das Cantigas de Santa Maria (Século XIII).

A Bandúrria utiliza-se, sobretudo, para acompanhar cantares que o próprio músico interpreta, pelo que as cordas se afinam segundo a voz do cantor. Uma corda faz de baixo contínuo e nas outras duas tocam-se as melodias, dependendo do intervalo musical e da tonalidade que se utilize.
Os intervalos para afinar as cordas são de oitava, quinta e quarta, por exemplo: Re, La, Ré, ou, Re, Sol, Ré, o que também nos reporta à música medieval. Outra particularidade da Bandúrria é a forma de tocá-la. Toca-se sentado e com o instrumento entre as pernas, o que nos recorda as iluminuras de músicos que aparecem nas Cantigas de Santa Maria, de Afonso X, datadas do século XIII.

Uma outra "Bandúrria", mas sem qualquer relação com a Bandúrria asturiana. 

O nome de Bandúrria traz alguma confusão por este vocábulo ser também utilizado para designar outro instrumento, mais conhecido e popular actualmente, utilizado nas Rondas, Tunas, etc., e também por existir outro instrumento da mesma família musical, chamado “Rabel”, de uso disperso pela Cantábria, Palência, Segóvia, Ávila, Zamora, Toledo, Logroño, Soria e outras regiões espanholas. O que deu azo a confusão e a desprezar e tomar como errado o nome de Bandúrria. Nada mais longe da realidade; são bastante frequentes equívocos desta natureza, quando se estudam instrumentos antigos.

Seguindo o critério da investigação, o porquê do nome “Bandúrria” levou-me a explorar dois caminhos: o trabalho de campo e a documentação em textos.
Ora acontece que os informantes de Casu, l’Infestu, Llanes e Cangues d’Onis, onde tenho recolhido dados sobre o instrumento, não sabiam o que era um rabel e só de ver a Bandúrria, identificavam-na pelo seu nome. Noutras zonas, como Riaño, no território administrativo de Leão, Potes ou na aldeia de Pejanda, do vale de Polaciones, no território administrativo da Cantábria, também houve e há pessoas idosas que tocavam e tocam e chamam ao instrumento “Bandúrria”. Nestas zonas, o nome “Rabel” está mais expandido e continua a trazer equívocos aos investigadores. As pessoas que diferenciam a Bandúrria e o Rabel nessas povoações, fazem-no pela forma como se agarra para tocar.
O Rabel toca-se apoiado no ombro ou no braço, e a Bandúrria entre os joelhos. Outras diferenças notam-se numa simples observação da construção e do número de cordas.


Exemplar de Bandúrria, com as características três cordas, tampo de pele esticada, forma plana do seu cavalete e o "restriellu" trabalhado. Note-se ainda a sua parte anterior, decorada com entalhes elaborados, muito usuais neste instrumento (clique para aumentar).

Uma vez que nestas aldeias ainda subsiste na memória colectiva um nome para diferenciar os dois instrumentos e tendo em conta que devemos respeitar essa memória, já que é a que mantém em muitas ocasiões o fio transmissor da história, ainda que seja difícil compreendê-la ao princípio, nada melhor que um desafio como este para qualquer investigador.
A consulta de textos sobre etimologia e dicionários musicais forneceu mais pistas sobre este tema. 
No ano de 1611, Sebastián de Covarrubias aponta algumas notas onde se torna patente a confusão sobre estes instrumentos, quando descreve a Bandúrria como um “instrumento musical a modo de Rabel pequeno de três cordas”.

A palavra “Bandúrria” tem a sua origem no grego “pandura” ou “pandoura”, que também era um instrumento musical e que no latim derivou em “Pandurium” ou “mandurium”.
A raiz deste vocábulo deu nome a instrumentos de corda e inclusive de percussão. Arcipreste de Hita, em meados do século XIV, cita a “manduria” e aporta mais alguns dados sobre o uso frequente que tinha nesse contexto:

"Aravigo non quiere la viuela de arco,
Çinfonia, guitarra non son de aqueste marco,
Çitola, odreçillo non aman caguyl hallaço,
Albogues e mandurias, caramillo e çanpolla,
non se pagan de aravigo quanto de ellos boloña."


Há investigadores da música árabe-andaluza, como Julián Ribera, que dizem que deste texto pode deduzir-se que instrumentos é que se usavam para interpretar música árabe e quais os que não, baseando-se no gosto da música árabe por se fazer acompanhar no canto por instrumentos dedilhados, como o Alaúde e não de instrumentos de baixo ou som contínuo.

Desse texto pode depreender-se que era um instrumento de som contínuo e de corda friccionada com arco. Outro autor que menciona o instrumento ao redor do século XVI, é Felix Lope de Vega, e neste autor vou deter-me um pouco mais longamente para comentar um acontecimento que me ocorreu casualmente e me deu a pista para saber a que instrumento se referia Lope de Vega quando relata em tom de escárnio, na sua obra “La Dorotea”, o sucedido assim descrito:

Bandurrio es muy antiguo. Fue el primer inventor de las Bandúrrias que hoy llaman el humo a las narices tapará un órgano. Fue Bandurrio llamado Rústico Orfeo porque habiéndose muerto su dama, intentó ir al los Campos Eliseos. Y aviendo llegado con esta locura una noche a las dehesas Gamenosas junto a Córdova, se le antojó que unas yeguas blancas eran las almas. Sacó su Bandúrria y espantó de manera los ganados, que los yegüeros ignorantes, como si fueran las bacanales de Tracia, le mataron a palos”.

Bem, graças ao acaso, fui testemunha, na aldeia de Caliau, de um evento que me remeteu directamente para este texto. Enquanto eu tocava a Bandúrria diante dos habitantes, o filho de um deles aproximou-se montado numa égua, e imediatamente se levantaram e mandaram-me parar. Foi tudo tão rápido que fiquei muito quieto e intrigado e perguntei - o que passava? Ao que me responderam que a Bandúrria assustava as éguas e que o rapaz podia ser atirado ao chão.
De facto, eles quando jovens usavam a “Ronquiella”, um instrumento feito com uma lata e uma corda, que quando friccionada, ressoava e fazia um ruído que espantava as éguas e era bastante usado para pregar partidas aos rapazes novos que saíam nas suas montadas.

Assim, talvez a Bandúrria a que se faz referencia em “La Dorotea” seja de corda friccionada e não dedilhada. Com efeito, o instrumento de corda dedilhada utilizado pelas Rondas 4 aparece em meados do século XVI e a partir desse momento tornou-se muito popular, o que pode constituir um dos motivos do equívoco quando se tentam decifrar textos onde se cita a Bandúrria no seu período dourado e posteriormente.
Quanto aos vocábulos “Rabel”, "Rabé" e "Rebec", existem com muitas formas semelhantes e há referências abundantes em textos medievais  descrevendo o instrumento como sendo de corda friccionada semelhante em formato ao Alaúde, com o corpo em forma de lágrima ou pêra, mas mais curto.


Daniel Garcia tocando a Bandúrria, (à esquerda) acompanhado por Ismael Lachacona, no festival Caminhos da Transumância, em Alpedrinha, 2003.

A utilização da Bandúrria e do Rabel está quase desaparecida actualmente, ainda que haja algumas tentativas das gerações mais jovens para compilar material e continuar com uma tradição provavelmente milenária. Nesse trabalho de compilação encontrámos uma utilização comum. Os dois instrumentos eram sobretudo utilizados por pastores, que com a transumância foram capazes de expandir e partilhar repertórios em uso; esta mesma circunstância também contribuiu para a sua conservação em âmbitos muito reduzidos e também, para a sua desaparição. 
No caso das Astúrias, a utilização que conhecemos passa pelo repertório de baile, alguma dança, mas sobretudo, pelo acompanhamento de “asturianadas” , cantares e romances.
Nestes dois âmbitos, dos cantares e romances, os dois instrumentos chegam a ter algumas letras e melodias de repertório comum entre gente que tocava em povoações situadas, em algumas ocasiões, a mais de quinhentos quilómetros de distância.


Detalhe do pórtico de Samartiño de Noia, na Corunha, Galiza (século XV).

Há uma relação muito próxima no uso de instrumentos entre as Astúrias e a Cantábria. Na povoação de Caliau trabalhava-se muito nos montes, na recolha de madeira e ali conviveu durante meses ao ano gente da Lebana e do Vale de Polaciones e do concelho de Casín, o que tornou possível que as pessoas recordem cantares de um lugar e de outro. 

O contexto no qual se tocava a música de Bandúrria era no fim das jornas de trabalho e nas festas, fiadeiros, desfolhadas 6, Natal, Entrudo, etc.
Segundo Chema Puente, investigador e recuperador da Bandúrria e Rabel na Cantábria, no Vale de Polaciones é do agrado da gente cantar asturianadas 5 ao som do instrumento, como esta:

"En Asturias los mineros, que buenos muchachos son,
pero tienen una falta, que mueren sin confesión.(Bis)
Desde el fondo de la mina, llamé al cielo y no me oyó,
Santa Barbara bendita, te digo de corazón,
mi madre quiere casarme con uno de la oficina,
si yo le quiero minero, que vaya y venga a la mina,
que vaya y venga a la mina, a la mina del carbón,
que aunque el carbón sea negro las pesetas blancas son,"


Um dos cantares recolhidos em Caliao e na aldeia de Sigüencu, em Cangues d’Onis, dá-nos uma oportunidade para percebermos o uso irónico do instrumento, e o carácter do “bandurrieru”:

"Bien té lo dixi Bandúrria, qu’ibamos dir a castañes, 
tu me disti la desculpa, qu’estaben fríes les mañanes."


Um caso de repertório comum com Zamora e a Cantábria, por exemplo, é o da seguinte letra:

"En el jardín de la hierba buena donde se crían las azucenas,
Has estado en Reinosa y has aprendido a ponerle los cuernos a tu marido.
En el jardín de la hierba buena donde se crían las azucenas,
Mi novio es un cobarde que no se atreve a decirme a la cara lo que me quiere."


Na povoação de Caliao ainda há gente que faz letras e rimas como esta, onde se conta como se faz uma Bandúrria:

"Vo facer una Bandúrria, d’un troncu de cerezal,
El restriellu ye de texu, el caballu de nozal,
El pelleyu d’un corderu, los tornos de recimal,
Les cuerdes son de pitina, el rabil ye de peral
Vo cortar el rau a la yegua, pa preparai el sedal,
Y cantar enes velaes, pa que me den de cenar."



Alguns dos romances que circularam de forma comum foram "La fiera Crupecia", "Rico Franco", "La dama y el pastor", "El mozu arrieru" ou "La hermana cautiva", do qual passo a contar a versão que recolhi em Caliao:

"Un venticinco de Mayo, iba yo de cacería, y vi lavar a una mora al pié de una fuente fría,
Apártate mora bella, apartate mora linda, deja beber mi caballo en la fuente cristalina,
No soy mora caballero, que soy cristiana cautiva,
me cautivaron los moros siendo yo muy chiquitina,
si quieres venirte a España, monta en mi caballería,
yo te juro por mi espada, que en el pecho la traía,
de no tocarte ni hablarte, hasta los montes de oliva,
y estos pañales que lavo, ¿dónde yo los dejaría?,
los de seda y los de holanda, monta en mi caballería, 
y los que no valen nada la corriente llevaría,
y al llegar a aquellos montes la mora llora y suspira,
¿Por qué lloras mora bella?, ¿Por qué lloras mora linda?,
porque aquí por estos montes, mi padre a cazar venía,
y mi hermanito manolo de la mano me traía,
¡Valgame la virgen Santa!, ¡Valgamé Santa María!,
creí traer una mora y traigo una hermana mía,
Abridme la puerta padres, ventanas y galerías,
Que aquí os traigo la prenda tan llorada noche y día,
Y su padre la abrazaba y su madre le decía, 
hija de mi corazón, ¿dónde estuviste metida?,
en un castillo de moros, que cautiva me tenían,
lavándole los pañales a una morita que había."


Depois da recolha de dados sobre “bandurrierus” em Caliao e noutras aldeias dos arredores, como La Felguerina, La Infiesta, Coballes, Ricau, La Encruceyá, Puentepiedra, etc, compilei o nome de dezassete pessoas que, desde 1870 a 1994, aproximadamente, tocaram a Bandúrria.
A Bandúrria que podemos datar com mais antiguidade está na posse de uma habitante de Caliao; era do seu avô e pode ter uns 130 anos, pelo menos.

O "Bandurrieru" José Ramon Prida, em 
Buenos Aires, Argentina, na década de
60. Os últimos tocadores de Bandúrria 
eram emigrantes asturianos nesse país.

A abundância de dados nestes lugares e a sua escassez noutras zonas das Astúrias, bem como com a observação de nove instrumentos originais, abriram-me o caminho para reconhecer que a origem das Bandúrrias que estão no museu arqueológico tem de ser dessa zona, além disso, Xuán Manuel Calvo, alcaide de Caliao até 1999 e de idade muito avançada, conheceu e viu como nos anos trinta o Marquês da Rodriga comprou e levou de Caliao muitíssimas coisas.
As semelhanças de tamanho, formas, medidas, posição dos buracos na pele, etc, dos nove instrumentos observados faz-nos crer num contexto comum, pois há detalhes que, se não se vêem de uma forma próxima e contemporânea, dificilmente se reproduzem noutros instrumentos.
Uma das Bandúrrias do museu, tem gravadas na parte de trás as iniciais “E. M.”, que correspondem com as de Enrique Martínez, um artesão de La Felguerina.

As Bandúrrias eram habitualmente feitas pelos próprios músicos ou por vezes recebidas como herança. Um dos construtores mais reputado foi José González Martínez, conhecido por Jose’l Cau. Outros dois bons “bandurrieros” foram José Ramón Prida e Pepe Calvo. Os dois emigraram para a Argentina, como outros habitantes da zona, e ali continuaram a tocar a Bandúrria. Chegaram a gravar um tema num disco de ardósia 7

Graças à memória colectiva dos habitantes de Caliao e arredores fui capaz de compilar umas setenta melodias e continuo a recolher material, e graças às gravações que se fizeram de David Caballín e à iniciação ao conhecimento do uso da Bandúrria que aprendi com Chema Puente, concretizou-se o objectivo de aprender a tocar a Bandúrria 
de uma maneira tradicional e manter viva a tradição musical.
Graças à associação de folclore tradicional “La Quintana” e ao “Ayuntamento de Casu”, organizámos no salão das antigas escolas de Caliao, no início de Maio de 1998, nas festas de Santa Cruz, uma exposição sobre a Bandúrria e um encontro de “bandurrierus”, que continuou nos anos de 1999, 2000, 2001 e terá em breve uma sétima edição em 2004.

Ansiamos que se converta num lugar e numa actividade de referência para todas as pessoas interessadas na Bandúrria e no Rabel. 
Se qualquer pessoa estiver realmente interessada neste tema e lhe apetecer contar algo ou conhecer algo mais, não hesite em contactar-me.
O instrumento volta a soar, a ter um uso musical e parece-me que tem assegurada a sua permanência entre nós durante mais alguns anos. 
Com efeito, na escola de música tradicional “La Quintana”, em Xixón, são dadas aulas de Bandúrria e outros músicos tocam já com ela. Espero que possa publicar-se brevemente um método, no qual estou a trabalhar, para aprender a tocar a Bandúrria e conhecer um pouco da sua história. Entretanto, agradeço de novo a informação que me foi dada e o auxílio que me prestou um sem número de pessoas, sem as quais eu não poderia fazer este trabalho.

Daniel Garcia de la Cuesta

Notas do tradutor:
1 - Oviedo, em Asturiano.
2 - Gijón, em Asturiano.
3 - "Yegueros": tratadores de éguas.
4 - No original asturiano: “Rondalles”.
5 - Tipo de canto popular asturiano.
6 - Folixes, Filandones, e Esfoyaces, no original asturiano.
7 - Até aos anos 50 eram ainda frequentes as gravações fonográficas em discos de pó de ardósia, antes de se popularizarem os discos de vinil.


Bibliografia Consultada:
COROMINES, JOAN, Breve Diccionario Etimológico De La Lengua Castellana, Gredos, Madrid, 1967.
DICCIONARIO DE AUTORIDADES, Real Academia Española, Facsímil, Gredos, Madrid, 1964.
ENCICLOPEDIA UNIVERSAL ILUSTRADA EUROPEO-AMERICANA, Espasa-Calpe,1905.
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GARCÍA DE LA CUESTA, DANIEL, La Bandúrria, Boletín Anual Del Muséu Arquiolóxicu d’Asturies, Edita Conseyería d’Educación Y Cultura, Uviéu, 2000, Pp. 217-239.
GARCÍA DE LA CUESTA, DANIEL, La Bandúrria, Revista “Asturies, Memoria Encesa D’un País”, Nº 10, Avientu Del 2000, Pp. 26-33.
GARCÍA DE LA CUESTA, DANIEL, Presentación Bandurries, Boletín Informativu Del Muséu Arquiolóxicu d’Asturies, N º 14, Uviéu, 1998.
GARCÍA DE LA CUESTA, DANIEL, La Bandúrria Asturiana, Revista “Guía Asturiana Del Ocio”, N º 206, Uviéu, 2000, Pp. 32, 33.
GARCÍA DE LA CUESTA, DANIEL, Y LLANEZA ÁLVAREZ, JOSÉ ÁNGEL, La 
Percusión Nel Folclore Asturianu, Vtp Editorial, Xixón, 2001.
GARCÍA DE LA CUESTA, DANIEL, Y LLANEZA ÁLVAREZ, JOSÉ ÁNGEL, Instrumentos Airófonos Nel Folclore Asturianu, Vtp Editorial, Xixón, 2002.
GARCÍA DE LA CUESTA, DANIEL, Y LLANEZA ÁLVAREZ, JOSÉ ÁNGEL, Instrumentos Cordófonos Nel Folclore Asturianu, Vtp Editorial, Xixón, 2003.
GARCÍA DE LA CUESTA, DANIEL, Y, LLANEZA ÁLVAREZ, JOSÉ ÁNGEL, Musica Tradicional Asturiana, Percusión 1, 2 Y 3, Editora Del Norte, Mieres Del Camín, 2001. 
GOMARÍN GUIRADO, FERNANDO, El Rabel: Instrumento Músico-Folclórico, Publicaciones Del Instituto De Etnografía Y Folclore, Diputación Provincial De Santander, 1970.
M. TORNER, EDUARDO, Cancionero Musical De La Lírica Popular Asturiana, I.D.E.A.,Uviéu, 3ª Edición, 1986.
MARTÍNEZ ZAMORA, EUGENIO, Instrumentos Musicales En La Tradición Asturiana, Uviéu, 1989.
PÉREZ GUTIÉRREZ, MARIANO, El Universo De La Música, Sociedad General Española De Librería, Madrid, 1980. 
RIBERA, JULIÁN, Historia De La Música Árabe Medieval Y Su Influencia En La Española, Editorial Voluntad, Madrid, 1927
RAMÓN ANDRÉS, Diccionario De Instrumentos Musicales Desde Píndaro A J. S. Bach, Vox, Barcelona, 1995.
SANTIAGO LÓPEZ, MANUEL, El Rabel En Asturias, Revista De Folclore, N º 57, Valladolid, 1985.
TRANCHEFORT, FRANÇOIS –RENE, Los Instrumentos Musicales En El Mundo, Alianza Editorial, Madrid, 1985.
VALLS GORINA, MANUEL. Diccionario De La Música, Alianza Editorial, Madrid, 1971.


Tradução de Miguel Costa (Associação Gaita de Foles).

 


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