Associação Gaita-de-Foles A.P.E.D.G.F. APEDGF
Associação Portuguesa para o Estudo e Divulgação da Gaita-de-foles - Portuguese Bagpipe Society .'.
gaita - bagpipe - cornemuse - zampogna - dudelsack - bock - gaida - phìob - biniou - mezoued -zucra - duda - pipe - sackpipa
  Gaita-de-fole | Sócios | Actividades | Notícias | Escola | Comprar | Orquestra de Foles Documentos  | Contactos

« Principal « Arquivos « Imprensa « A Resurreição das Gaitas

.
  .
Espaco.jpg (632 bytes)
  .
Espaco.jpg (632 bytes)

A Ressurreição das Gaitas
Jornal Expresso, 14 de Outubro de 2000


BEN a scuitar la gaita - estas são as palavras pelas quais a segunda língua oficial portuguesa, o mirandês, convida a ir a Trás-os-Montes assistir à ressurreição das gaitas de foles. O som um pouco místico e arcaico deste instrumento volta a animar a mais nordestina das regiões de Portugal.

Há poucos dias, uma pequena aldeia do concelho de Miranda do Douro, a Póvoa - ou Pruôba, em mirandês - alegrou-se com o desfile de sete grupos de gaiteiros percorrendo as suas ruas de terra batida. Era a II Fiêsta de la Gaita de Fuôlhes, promovida pela Sons da Terra, uma organização que busca prosseguir o caminho que há muitos anos Michel Giacometti levou na recolha da música etnográfica.

«Em nome da tradição, os velhos gaiteiros mirandeses fizeram chegar aos nossos dias todo um reportório que urge recolher, preservar e divulgar» , diz Mário Correia, «alma mater» dos Sons da Terra.

«Um gaiteiro leva 21 anos a fazer-se, como dizem os irlandeses. Mas num ano pôe-se a tocar» , assim fala Ângelo Arribas, nascido em 15 de Maio de 1936, em Freixenosa, vivendo hoje em Bila Chana de Braceosa. São nomes algo estranhos de localidades que, recorde-se, ficam na raia, ali mesmo ao lado de Castela-Leão.

Ângelo Arribas é provavelmente o mais «puro» dos gaiteiros mirandeses. Tornou-se profissional apenas aos 50 anos, lembrando que quando começou «estava tudo a cair ao poço» , que é como quem diz, a tradição estava a perder-se.

«Há, na realidade, um regresso da gaita. Tornou-se uma espécie de moda, já que em toda a Europa há uma apetência pela cultura étnica» , refere Francisco Prada, coordenador do Departamento de Música do Instituto Politécnico de Bragança. Ele próprio publicou uma trabalho de investigação sobre gaitas de foles que lhe consumiu 840 páginas.

«Aos nove anos, andava com as ovelhas e já tocava uma flauta pastoril (de três buracos). E com essa idade fiz um tamboril com a pela de um coelho» , revela Ângelo Arribas. Ele bebeu a sua paixão pela música nos duros montes do nordeste português.

Construtor de gaitas

Toni das Gaitas vive no Porto mas não esquece Valpaços

 

Hoje, além de tocador, é também construtor. «A minha primeira gaita fi-la da pele de um rato e com palhas de centeio. De um lado tocava, de outro mexia os dedos» .

Faz dois tipos de gaitas: a galega, com um som mais fino e com o fole em borracha, custa 60 contos. A mirandesa tem um som mais grave, o fole é de pele de carneiro e custa 100 contos. As gaitas são anilhadas com chifres de boi.

Enquanto fala vão desfilando outros grupos, o de Constantin, mesmo junto a Espanha, o de Urrós, a Lelia Doura - Gaitas de Gallaecia (do Porto). Mais longe na conversa haveria de tocar o grupo castelhano-leonês de Paco Diez e la Bazanca, um conjunto extraordinário que alia a gaita de foles tradicional à sanfona, às guitarras e à percussão numa mistura única.

«A mulher do gaiteiro/tem uma grande fortuna/ tem duas gaitas/ em vez de uma» , diz Paco Diez a dado momento da sua actuação, num tom mordaz, comum aos gaiteiros. Aliás, veja-se o conselho que Ângelo Arribas dá aos jovens (e são muitos actualmente) que pretendem iniciar-se nestas lides musicais: «Agarrem-se à gaita com vontade e coragem» .

Ele tinha apenas nove anos quando fez a sua primeira actuação, num casamento. Sabia somente três músicas que tocou incessante e repetidamente na sua flauta pastoril. Homem de sete profissões e de muitos instrumentos - trabalhou na barragem do Picoto e foi despenseiro numa pousada, por exemplo, e toca também caixa e bombo - chegou aos famosos Pauliteiros de Miranda.

Foi com o célebre padre Mourinho, grande responsável pelo reconhecimento do mirandês, que andou pelos Pauliteiros e com eles viajou por Macau, Madrid, Paris, Londres. «Se não fosse a gaita não tinha viajado tanto» , reconhece.

Se a vida não o tivesse feito enveredar pelo profissionalismo na música - cada tocador recebe, em regra, dez mil escudos por actuação - gostaria de ter sido alfaiate. Admira esta actividade? «Um cachico» , responde em mirandês, o que vale por dizer um bocadinho. Ele viajou de Bila Chana de Braceosa para Lisboa onde esteve na inauguração do centro Cultural de Belém. E já participou numa eleição de Miss Portugal e tocou na festa de casamento de D. Duarte Pio.

Embaixador cultural

Ângelo Arribas (á direita) é o mais puro representante da gaita mirandesa

 

Quem parece francamente satisfeito com este ressurgimento das gaitas de foles, mais evidente nos últimos quatro anos, com o aparecimento de novos grupos de jovens tocadores - alguns com formação musical a nível superior como os do Galandum Galundaina, de Miranda - é António Tiza, presidente da Região de Turismo do Nordeste Transmontano.

A gaita de foles e os grupos de pauliteiros, que também têm ressurgido em força, são verdadeiros embaixadores culturais nordestinos. Ainda há pouco tempo os Pauliteiros do Mogadouro se exibiram no Japão.

«Este renascimento deve-se, sobretudo, às festas de Inverno, que exigem sempre a presença do gaiteiro. O importante é divulgar em Portugal essas festas» , afirma.

E em Espanha - vizinha próxima -, por certo, onde o asturiano Hevia foi o gaiteiro a número um de vendas no ano passado com a sua gaita electrónica. 
E onde agora chegou a vez do galego Budiño ascender à primeira posição dos «40 Principales».

É difícil de tocar? «Nada é difícil quando se sabe», sentencia Ângelo Arribas. Mas em Miranda do Douro prepara-se a criação de uma escola específica para este instrumento e acompanhantes (caixa e bombo).

O entusiasmo é grande que a «proa» (orgulho) é muita» .

«Raiç i tradiçon» eis a palavra de ordem que varre Trás-os-Montes!"

JORGE MASSADA

fonte: Jornal Expresso

 


Início | Gaita-de-fole | Sócios | Actividades | Notícias | Escola de Gaitas |
Comprar | Orquestra de Foles | Documentos | Equipa | English  | Links | Contactos
Powered by RRMerlin

Associação Gaita de Foles - direitos reservados