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Ângelo Arribas
Freixenosa, Miranda do Douro

"Tocar é um dom". Um dom que Angelo Arribas sabia que tinha desde que de tenra idade se apaixonara pelas gaitas de foles. Só que a vida trocou-lhe as voltas e durante mais de 40 anos afastou-o da sua paixão. Até um dia a sorte mudar e concretizar o seu sonho.

"Esta arte nasceu comigo"

Ângelo Arribas, Gaiteiro.

Reza a história, segundo a mitologia grega, que foi a Deusa Atena a inventora da gaita. Decidida a abrilhantar a assembleia dos deuses com um novo instrumento de nome Aulo (assim se chamava), Atena tocou-o durante um banquete. Contudo, os deuses riram-se ao verem as suas bochechas inchadas, e furiosa a Deusa deitou-o fora amaldiçoando quem o viesse a encontrar.

Angelo Arribas desconhece esta história. Sabe apenas que, por maldição ou destino, foi este o instrumento que sempre o encantou desde a meninice. "Esta arte nasceu-me, não aprendi. Nasceu comigo", afirma com convicção, enquanto com a palma da mão alisa as finas listas azuis da camisa de encontro ao peito. 

Foi num dia de Primavera, tinha então sete anos. Estava a guardar uma vaca, e a comer um pedaço de pão, quando por acaso conseguiu apanhar um rato que se aproximara demasiado. "Fui mais rápido que o rato" refere com perplexidade. Depois, "esfolei-o, e com palhas de centeio fiz a minha primeira gaita de fole". Não tinha ronca, mas "por um lado soprava, pelo outro tocava a ponteira".

A partir daí, durante as longas horas de solidão em que conduzia e guardava os rebanhos, sempre desejou ter e tocar uma gaita de foles. Nessa época, duas pessoas marcaram-no com a sua influência. Um irmão residente em Espanha, de onde é originária a sua família, e que via apenas uma vez por ano. Nunca trazia a gaita de foles, mas "eu sentia-o tocar". E o cunhado, Alexandre Augusto Feio, "um dos grandes gaiteiros mirandeses", que viria a ser o seu modelo de gaiteiro.

À falta de uma gaita de foles, e como pastor que não soubesse tocar não era verdadeiramente respeitado, Angelo Arribas tinha nove ou dez anos quando aprendeu a tocar fraita, a conhecida flauta pastoril, e tamboril. Lembra-se bem. Nessa época não se podia andar atrás dos rebanhos com menos de 12 anos, e por duas vezes acabou por regressar a casa com multas da GNR.

Mais tarde, com 16 anos, começou a tocar caixa no Rancho Folclórico de Duas Igrejas, com o Padre António Mourinho. Presbítero, arqueólogo, etnógrafo. Homem apaixonado e defensor dos costumes da Terras de Miranda, Mourinho fundara este grupo e os Pauliteiros de Cércio em 1945. Com ele trabalhou quase 40 anos nos ranchos folclóricos.

"nunca me disse como se tocava"

A música já fazia parte da sua vida, mas a gaita insistia em permanecer à distância. Tudo, devido aos segredos e rivalidades entre os gaiteiros. Ainda hoje guarda remorso das atitudes de Alexandre Augusto Feio. "Uma pessoa que nunca me mostrou como é que se afinava a gaita de foles, nem nunca me disse como é que se tocava". Nos tempos em que tocava caixa num grupo, lembra-se de virem fazer um espectáculo em Lisboa, na antiga FIL onde aconteceu um incidente que nunca esqueceu. Curioso pelas coisas das gaitas de foles e apanhando o cunhado distraído, Angelo esquivou-se para junto do instrumento. "Apenas meti um dedo na ponteira, para ver o diâmetro que tinha, para poder tentar fazer" recorda. A reacção foi intempestiva. "Quando me viu, não me bateu porque não calhou". 

São muitas história para contar. De discurso fluído e encadeado, o mestre quase não pára para respirar. Num fôlego discorre sobre a sua vida até à adolescência. Lembra-se das histórias como se fossem hoje. Pontua-as com exclamações e interrogações, reproduz vozes e arrisca suposições. Enfim, acede a uma pausa. Deixáramos já as instalações de Freixenosa, junto à sua casa para nos dirigirmos a Picote, onde guarda as gaitas de foles numa oficina. Aqui o mestre fez questão de vestir a "farda de trabalho" verde azeitona, e ensaia a Alvorada numa gaita galega.

Regressado à história, recorda que apesar das contrariedades ficou sempre a vontade de aprender. Só que vida trocou-lhe as voltas e atirou-o para as construções de barragens. Ao longo de 36 anos fez disso a sua vida, apenas com uma passagem por França, onde exerceu profissões variadas. Durante todo esse tempo, nunca teve condições para adquirir uma gaita de foles, pois já atingiam preços elevados.

Até que um episódio fortuito fez com que a sua vida desse uma volta de 180 graus. Estávamos nos anos 80, Angelo Arribas voltava a Freixenosa depois de um dia de trabalho na barragem de Picote, quando foi tomado de espanto pela imagem de um rapaz conhecido, a tocar na rua uma gaita com um fole feito de uma câmara de ar de borracha. "Perguntei a esse rapaz: Ó Eduardo, quem fez essa gaita? Fui eu e vosso irmão Manuel. Às noites de serão em casa, furámo-la com um espeto... Pus-me a olhar para aquilo e pensei com os meus botões: Serei assim tão burro que não faça uma gaita melhor do que esta?" Pediu-a emprestada por uma semana, mas na resposta Eduardo ofereceu-lhe o instrumento.

"fiz uma gaita superior aquela"

Ângelo Arribas na sua oficina, em Picote

Armado com essa gaita, foi para a oficina em Picote, na qual ainda hoje trabalha. Com um berbequim, um torno, algumas ferramentas diversas, e uma grande dose de habilidade e paciência, fez uma "gaita superior aquela". Na qual pôs um fole galego, de borracha, vestido com flanela. Nessa mesma gaita começou a dar os primeiros acordes a caminho da aprendizagem. Uma vez que o conhecimento lhe tinha estado vedado até aí.

Mas a história não ficou por aqui. Estava Angelo orgulhoso da sua gaita de foles e das primeiras notas que dali  arrancava, quando um dia rumou a Miranda do Douro acompanhado do instrumento de que se tornara inseparável. Ao atravessar a praça encontrou o doutor António Mourinho que o interpelou: "Ó Angelo, quem fez essa gaita? Respondi: Fui eu. Não te quero ver com isso. Porquê senhor doutor? Porque isso é galego. Vais para casa, matas um cabrito, comes a carne, preparas o fole e pões-lhe. Se te apresentares com essa tiro-ta!" De volta a casa, Angelo cumpriu com os desejos do homem que é uma referência na cultura mirandesa, e que tanto o marcou. Algum tempo depois, preparado o fole de cabrito, pô-lo na gaita e voltou a encontrar-se com António Mourinho. Satisfeito o ex-pároco comentou: "Sim senhor. Já não te falta emprego." 

Mourinho tinha razões para tanta atenção. O fole é o elemento mais singular da gaita e, no fundo, é o que lhe dá o nome. Sendo a particuldaridade com que se distingue mais facilmente a gaita mirandesa da galega. O próprio vocábulo gaita deriva do antigo suevo gaits, que significaria cabra. A expressão terá assumido a forma de gayta em escritos medievais. Daí que o termo gaita de foles seja um pleonasmo ou, no mínimo, redundante, dado que não há gaita que não tenha fole. É provável que esta expressão tenha surgido da necessidade de a distinguir da harmónica, erradamente chamada de gaita.

Gaita de foles ou gaita, somente em 1987 é que Angelo Arribas começou a animar festas mirandesas. Nascido em 1936, contava já com mais de 50 anos. A aprendizagem tardia foi compensada pelo amor às gaitas de foles e pelo talento de tocador. Rapidamente aumentou os seus conhecimentos, até dominar quase todo o repertório gaiteiro mirandês. Desde toques de rua, a modas de baile e cantigas, passando pelos inevitáveis e emblemáticos lhaços das danças de paulitos. 

Hoje, dedica-se a tocar o seu vasto repertório acompanhado por Benjamim Monteiro, tocador de caixa, e pelo seu irmão André Arribas, tocador de bombo, num trio a que chamaram os Gaiteiros de Freixenosa. O sucesso tem sido tal, que até lhes falta tempo para corresponder às solicitações. Por vezes, têm de preterir alguns espectáculos por causa de outros, devido à coincidência de datas. "Não me posso rachar ao meio!", exclama num encolher de ombros.

Primeira gaita está em Itália

Em paralelo, o mestre dedica o seu tempo à construção de gaitas de foles, bem como bombos, caixas de guerra, flautas, tamboris, pandeiros e pandeiretas. Aquela primeira gaita, ponto de partida para tudo o que lhe tem acontecido, estará hoje algures por Itália, depois de um casal de turistas ter teimado em comprá-la. Foi a primeira venda para o estrangeiro. 

Foi nesta componente que o mestre recebeu apoio do programa LEADER, através da CORANE. Um investimento na oficina de Freixenosa, através da compra de equipamento eléctrico, que visa facilitar o tratamento da madeira. Desbastar, serrar, perfurar e limar são hoje operações mais fáceis, e que demoram menos tempo. "Enquanto antes fazia uma gaita por semana, hoje sou capaz de fazer duas ou três", reconhece o mestre.

Por fim, com simplicidade acede a mostrar as componentes da Gaita. Na mão direita segura agora a ponteira. "É o principal", constata com ar sério. "É uma espécie de flauta. É cónica e é furada de forma cónica também". Tem 11 buracos, oito melódicos e três "ouvidos". O comprimento varia consoante o som que se lhe queira dar. As mais curtas têm um som grileiro, que é mais agudo, caso da galega. As intermédias têm o chamado som redondo, e as mais longas têm o som tumbal, como a típica mirandesa. Depois, temos a ronca ou bordão "é oca para dar um som grave". É constituída por três peças encaixadas, e leva uma palheta simples ou palhão, na zona mais estreita. Já não tem furos para os dedos. Para encher o fole usa-se o enchefole ou soprete. Fica na parte superior, próximo da boca do gaiteiro, e tem na parte inferior "uma válvula que impede que o ar insuflado se escape". Com tranquilidade o mestre dispersa-se ainda sobre alguns conhecimentos acerca da ronqueta e da palheta, até que termina a exposição num gesto vago de deslizar a mão sobre o alto da cabeça onde rareiam os cabelos.

Este saber, Angelo Arribas não quer guardar consigo. Não quer cometer os mesmos erros de outros gaiteiros que lhe esconderam estes saberes. A pouco e pouco tem vindo a ensinar alguns jovens que se interessam por este instrumento. Vários dos novos gaiteiros que têm feito renascer esta arte, passaram pelas suas mãos. Como é o caso de dois jovens, que devido à escassez da verba da Associação Cultural dos Pauliteiros de Cércio, ensinou em apenas 20 horas de aulas. "Se outro gaiteiro me dissesse que pôs em 20 horas dois rapazes a tocar, talvez eu lhe dissesse que era mentira", confessa Angelo ante a raridade do fenómeno.

"Tocar é um dom." Afirma em jeito de explicação da história acabada de contar. "Não posso chegar ao pé de uma pessoa e dizer: Vou ensinar esta pessoa a tocar num mês. Por muito que queira aprender." É preciso " ter muita música na cabeça" refere com convicção. E é a pensar naqueles que têm "música na cabeça" que o mestre guarda o sonho de um dia ter apoios para criar uma escola para ensinar a fazer e tocar gaitas de foles na região de Miranda. Depois de tudo o que passou, sem nunca lhe quererem ensinar a arte da toque e da construção de gaitas, Angelo Arribas não nega apoio aos mais jovens. O seu lema é mesmo "aprende tudo o que puderes, a ver se aprendes mais do que eu aprendi".

Texto e Fotos: João Limão - [email protected]
Publicado em "Pessoas e Lugares" , edição 23, Outubro de 2001

 


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