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Joaquim Carriço
Gaiteiro de Quinta do Valongo - Mealhada



Joaquim Carriço (à direita) no II Encontro Nacional de Gaiteiros, em Santa Maria da Feira (foto: Associação Gaita de Foles).
 

"Mais talvez do que quaisquer outros gaiteiros, estes são, para lá do seu ruralismo, gentes pícaras e possessas da loucura mansa da sua arte, que representa para eles a liberdade e a plena expansão da força lúdica que os habita…"

As palavras de Ernesto Veiga de Oliveira sobre os populares gaiteiros da área mais ou menos circular confinada por terras de Mealhada, Cantanhede, Condeixa, Miranda do Corvo e Penacova, escritas nos já longínquos anos 60 do século passado. 

Percorrer estas terras é ainda hoje uma surpreendente oportunidade para a (re)descoberta de ruralidades de ancestrais permanências, pese embora a cada vez mais omnipresente força modificadora da modernidade que inevitável e irreversivelmente se faz sentir, aos mais diversos e distintos níveis, por todo o lado, sem todavia ter afectado, de forma acentuada, os contextos tradicionais das funções que ao longo dos tempos foram sendo atribuídas aos gaiteiros populares nas várias ocasiões festivas das respectivas comunidades.


Joaquim Carriço com o grupo "Os Raimundos" (foto: Henrique Oliveira - Associação Gaita de Foles).

De facto, em conversa com o gaiteiro de Quinta do Valongo, o popular Joaquim Carriço – que mora em rua designada “Rua do Gaiteiro”, numa tão significativa como inequívoca homenagem à sua arte, talento e popularidade -, homem com uns vigorosos 75 anos de idade, acerca das suas andanças, desde logo podemos concluir sobre a permanência activa e expressiva das funções cerimoniais nas romarias da região, com destaque para as suas participações em procissões, peditórios, desfiles e cortejos de ruas, despiques gaiteiros e animação de bailes em largos e terreiros. Às quais acrescem actuações de propaganda turística ou promocional, de eventos de cariz folclórico, numa tendência bem mais recente em termos de solicitações dos gaiteiros populares. 


Rua do Gaiteiro (foto: Henrique Oliveira - Associação Gaita de Foles).

Importa reconhecer a importância que Joaquim Carriço atribui à permanência de tais funções em contextos tradicionais, resumindo num esclarecedor "sempre foi assim e é assim que tem de ser" tudo quanto se relacione com as solicitações que, confessadamente, gosta de ver repetidas e renovadas ano após ano. Mesmo quando se trata de funções que de algum modo extravasam os territórios tradicionais, como sucedia com as participações na Queima das Fitas, em Coimbra, pese embora o facto de já remontarem, no seu caso, a tempos idos: Ernesto Veiga de Oliveira reporta-nos a presença dos gaiteiros da área do Mondego nas "grandes celebrações académicas –“Tomada da Bastilha”, “Queima das Fitas”, “Latadas”, etc. – que animam com as suas alegres e rústicas barulheiras, dando as “alvoradas” e “arruadas” que se fazem pelo dia fora, tocando em despique uns com os outros na Porta Férrea, e, depois, pelas “repúblicas” e “tascas da Alta”, que lhes confere a sua verdadeira originalidade. Hoje em dia, confessou-nos Joaquim Carriço, já não tenho vida para aturar a estudantada"…

De algum modo contrariando a tese de Ernesto Veiga de Oliveira, de que, à semelhança do que acontece no Minho, "a música que tocam representa apenas o vulgar folclore local, sem nada de específico, tradicional ou peculiar, e pode também dizer-se que a sua cerimonialidade se funda apenas na própria cerimonialidade do instrumento", o trabalho de campo desenvolvido permitiu-nos concluir sobre a existência de algum repertório de facto peculiar ao popular instrumento, sendo certo ser apenas interpretado, na região, pelos respectivos gaiteiros (entre o qual não podemos deixar de destacar, pelo seu valor expressivo e pelo seu elevado interesse do ponto de vista etnomusicológico, um espécime como o Passo-dobrado). No entanto, importa referi-lo, maior parte do repertório reflecte de sobremaneira todo um conjunto espécimes cruzados com as mais diversas origens e proveniências. Convém não esquecer que numa terra de transição também a música tradicional é uma música de transição. 

"Eu comecei a tocar gaita de foles quando tinha aí uns vinte anos, quando ainda era solteiro. Foi quando fui comprar uma gaita em segunda mão a Taveiro, em Ribeira de Frades, que era a terra dos gaiteiros naquele tempo."

Joaquim Pereira Carriço, que nasceu em 5 de Setembro de 1929 na Quinta do Valongo, onde reside, não tem conhecimento da existência de quaisquer antecedentes musicais na sua família. Tudo o que sabe aprendeu-o à sua custa, sem qualquer ajuda, primeiro tocando nos pífaros de cana ou de sabugueiro feitos por si, e, depois, numa daquelas compridas flautas de lata que apareciam à venda na romaria da Ascensão:
"Ninguém me ensinou nada: eu ouvia as músicas aqui e ali e depois tocava-as nos pífaros. Naquele tempo eu não tinha possibilidades para ter outros instrumentos e não tinha outro remédio senão fazê-los de cana ou de sabugueiro, que havia sempre à mão pelos campos. E depois também vieram as flautas de lata, até que me arrimei à gaita…"

Joaquim Carriço recorda-se de ter visto tocar algumas vezes os famosos gaiteiros da Vacariça (que surgem referenciados pelo músico-caminheiro Armando Leça, na sua obra Música Popular Portuguesa, publicada em 1940), naturais da Quinta do Valongo, bem como o não menos popular Ti Chico, gaiteiro da Marmeleira. E nas suas andanças gaiteiras recorda sempre encontros com muitos dos gaiteiros da região, nomeadamente por alturas da Queima das Fitas, em Coimbra, bem como nas maiores romarias da região.

"Ainda me lembro muito bem das gaitas antigas que se faziam por aqui, com fole de cabrito. E dos velhos gaiteiros que tocavam com estas gaitas. Eu ainda tive uma dessas gaitas de fole com pele de cabrito, que conservavam as palhetas bem mais enxutas do que estas de borracha. Estas, quando é no Inverno, guardam muito a saliva e de vez em quando lá temos de tirar o assoprete para deitar a água fora."

Joaquim Carriço possui quatro ponteiras provenientes da tradição de fabrico local (uma das quais saiu mesmo das mãos de José Mendes Seco, o conhecido fabricante de uma gaita que se encontra exposta no Museu de Etnologia, em Lisboa, adquirida em Condeixa por Ernesto Veiga de Oliveira. A gaita de foles actualmente utilizada por Joaquim Carriço é de inequívoca traça galega, tendo sido adquirida em Coimbra na casa Olímpio Medina. 


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Os Carriços", o grupo com o qual Joaquim Carriço (ao centro) tocou durante muitos anos (foto: Rui Carvalho).

Trata-se de um instrumento de reduzida potência sonora mas com uma expressividade tímbrica que lhe advém do facto de utilizar uma ponteira de fabrico local, de aparência robusta e com várias camadas de verniz, na qual os dedos evoluem de forma muito segura, sem falhas de digitação. Embora normalmente adquira as palhetas e os palhões que utiliza, não deixou de referir o facto de por vezes utilizar palhetas por si confeccionadas com o plástico das embalagens de iogurte, por serem
"palhetas que não racham e que não têm problemas com a humidade. Mal comecei a aprender a tocar gaita de foles comecei logo a tocar em público e a fazer umas festas. Começaram logo a levar-me para aqui e para ali e assim foi. 
Sabe, eram as festas das nossas romarias e naquele tempo havia sempre gaiteiros para ir tirar a esmola. E ainda hoje é assim: vamos logo de manhã, com os mordomos da festa, para ir recolher as oferendas que o povo dá para a festa. Começamos a tocar de manhã mas às vezes vai até quase ao fim da tarde. Andamos com os mordomos, de porta em porta, às vezes bebe-se uma pinga aqui ou ali e toca-se por todas as ruas da povoação."


Mas os gaiteiros também se incorporam nas procissões religiosas, tocando espécimes de inequívoco carácter sagrado, para logo mais animarem os bailes populares com as mais variadas modas de dança. E, pela noite fora, não raro acontecem os despiques entre gaiteiros: 
"Eu já fui algumas vezes aos despiques: são três ou quatro, em cima do palco, um toca uma moda, outro toca outra e depois de dar a volta torna-se a tocar. E depois há uma mesa para recolher os votos da assistência. Eu já ganhei uma vez o primeiro prémio num desses despiques. Os despiques são à noitada e uma coisa é ir tirar a esmola e outra é tocar nos despiques."

O reportório é muito variado, revelando uma extraordinária apetência dos gaiteiros pelos temas mais populares (ou popularizados) e propiciadores do baile. Joaquim Carriço garante-nos não haver nada que não seja capaz de tocar, embora já por vezes a memória pareça não lhe fazer a vontade com a prontidão que deseja: numerosas valsas, viras e corridinhos, modas e cantigas populares, temas de recorte folclórico e espécimes de cariz religioso, tudo se faz ouvir através da sua ponteira, num estilo sóbrio e elegante, com uma técnica executiva bem controlada. O reportório gravado, em princípios de Março de 2004, em Quinta do Valongo, que integrará o testemunho fonográfico sobre o gaiteiro Joaquim Carriço, foi o seguinte: 

Maria da Fonte 
Corridinho
A Chita da Minha Blusa (Vira)
Rolinha
Fado Hilário 
Às Carreirinhas
Passarinho 
Malmequer
Malhão de Águeda 
Valsa Antiga
Ó Minha Terra 
Guitarra Toca Baixinho
Ó Rosa Arredonda a Saia 
Fandango
Queremos Deus
Senhora da Azinheira

Joaquim Carriço é um homem muito simpático e afável, com uma enorme disponibilidade, quase única, para falar de si e do instrumento que toca. Na Quinta do Valongo, onde nasceu e reside, é uma figura de inegável prestígio, respeitado e admirado. No registo testemunha sobre a sua arte e talento, Joaquim Carriço é acompanhado no bombo por seu filho, Manuel António Nogueira Pereira (nascido em 30 de Julho de 1976, residente na casa paterna) e na caixa por Ermitério Saraiva (nascido na Marmeleira do Botão em 18 de Maio de 1949 e residente na Quinta do Valongo). São uma dupla de percussão muito segura e com elevado nível de entendimento mútuo e que, nas arruadas, são uma autêntica “máquina rítmica”, de acordo, aliás, com a tradição da percussão na região.


Fotos: Associação Gaita de Foles.
Texto: Excerto do livrete do CD "Joaquim Carriço" - Colecção "Gaiteiros Tradicionais" - 
Mário Correia / Sons da Terra, 2005
 


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