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Flamínio de Almeida
Casal da Misarela (Coimbra)

Flamínio de Almeida nasceu em 1928 na aldeia de Casal da Misarela, onde reside, tendo-se iniciado nas lides gaiteiras quando tinha cerca de quinze anos. Estímulos para aprender a tocar não lhe faltaram: seu avô era um respeitado gaiteiro, muito apreciado pelas gentes da terra e das redondezas e seu tio tornou-se também um dos mais populares gaiteiros do Casal da Misarela.

Flamínio de Almeida no I Encontro Nacional de Gaiteiros (Pinhal Novo, Julho de 2001)

Tendo-lhe sido atribuídas por seu pai as tarefas do pastoreio, o jovem Flamínio desde logo decidiu aproveitar as longas horas passadas por montes e vales para aprender a tocar, pedindo emprestado a seu avô um velho flautim no qual ele já não costumava tocar. Perante as insistências de seu pai junto do velho gaiteiro, Flamínio acabou por conseguir o instrumento para os fins pretendidos.
No entanto, pouco tempo depois, o velho flautim já não lhe servia - quer do ponto de vista musical propriamente dito quer do ponto de vista social, porque o que ele queria era tocar gaita nas festas locais e regionais, como todos os velhos gaiteiros que conhecia - o jovem Flamínio interessou-se pela velha gaita de foles que seu avô, devido à sua avançada idade, já não tocava. Só que não era nada fácil convencer um gaiteiro a deixar partir o seu instrumento, sobretudo depois de tantos anos de convivência. E seria de novo graças à intervenção de seu pai que a sua vontade seria satisfeita:
“Empreste lá a gaita ao seu neto; pode ser que o rapaz dê alguma coisa...”, teria argumentado seu pai para vencer as naturais resistências do ancião, de algum modo lhe dando a esperança da continuidade da tradição no seio da família.

As primeiras composições do seu repertório foram aprendidas vendo e ouvindo tocar seu tio, Hermano Rodrigues de Almeida, então o gaiteiro de Casal da Misarela, na medida em que seu avô já tinha deixado de tocar. Mas também as modas mais, populares da época, que as gentes da terra reclamavam e através das quais os mais jovens aferiam a categoria do gaiteiro. 
“Os mais velhos queriam sempre as modas mais antigas, mas os mais novos o que queriam eram as modernices e eu lá tinha de agradar a uns e a outros”, disse-nos Flamínio de Almeida. Tal como Ernesto Veiga de Oliveira tinha notado, tratava-se de um repertório específico, praticamente alheio à música característica da região, com um elevado grau de autonomia expressiva.
Das modas mais antigas que afirma ter aprendido de seu tio Hermano, Flamínio de Almeida refere-nos de imediato a "Alvorada"" e o ""Passo-dobrado", espécimes assaz expressivos do seu repertório que gosta particularmente de tocar. 
“A Alvorada é das modas mais antigas e mais bonitas que temos nas gaitas de foles”, garante-nos Flamínio de Almeida perfeitamente seguro da sua convicção. 

Flamínio de Almeida ainda se lembra da primeira festa em que tocou gaita de foles: Foi em Coimbra, na Queima das Fitas. “E os estudantes gostaram muito de mim, porque eu era muito novo, baixinho e com uma gaita deste tamanho!... Achavam-me graça! “
O êxito terá sido realmente considerável, tendo de imediato sido convidado para tocar em festas populares em Carregal do Sal e em Aveiro. E nunca mais parou.
Flamínio de Almeida costuma tocar nas festas da terra, realizadas em honra de S.Bento. E, garante-nos, “as pessoas aqui da terra gostam muito de me ouvir”.
Na última passagem de ano tocou nas Carvalhosas, acompanhado, como habitualmente, por dois tocadores dessa aldeia: João da Assunção, na caixa, e António Roque, no bombo. Esta é a formação instrumental tradicional da região. Tocar sozinho só quando vai na procissão, logo depois do pálio onde segue o sacerdote.

Gaita de Flamínio de Almeida.
Note-se a cor escura característica do buxo envelhecido, que atesta bem a antiguidade deste instrumento.

Flamínio de Almeida toca numa gaita de foles bem característica do fabrico tradicional da região: um consideravelmente grande fole de borracha envolvido por uma vestimenta" confeccionada em tecido "rico" por uma costureira da terra; uma ronca feita de buxo, com aplicações de latão polido, com particular destaque para a que envolve o rebordo exterior da copa; uma ponteira de pau-preto, com uma aplicação de latão polido no rebordo exterior da respectiva campânula; e um soprete feito a partir de um volumoso chaço de buxo, preso por um fio à ronca para não se afastar da boca do gaiteiro. Trata-se de um instrumento com características próprias bem definidas, porventura, verdadeiramente únicas em território nacional. Trata-se, de facto, de um instrumento rude e bastante "agressivo". Neste contexto distintivo, Michel Giacometti considerou a gaita de foles da região de Coimbra um "instrumento cantante", chamando a atenção, para o facto de apresentar as costumadas e saborosas "anomalias" tonais. Não deixa de ser digno de toda a nossa atenção o facto de a gaita de foles de Flamínio de Almeida se filiar clara e inequivocamente nesta "escola" de fabrico da região de Coimbra, a qual se encontra em vias de desaparecimento: tais gaitas já não se constroem e escasseiam já os gaiteiros que as tocam.

Flamínio de Almeida não faz as palhetas - as quais adquire em Coimbra, numa conhecida casa de instrumentos musicais e afins - e, segundo ele, são boas e não lhe dão problemas. O instrumento é de muito sopro e exige palhetas resistentes. Segundo ele, as gaitas de foles dos gaiteiros tradicionais da região são como a dele, não havendo gaitas galegas por aquelas paragens:
“Vi-as há dias em Coimbra: aquilo não presta! São tão finas e delgadinhas! ...”

Texto: Excerto do livrete do CD "Flamínio de Almeida, Gaiteiro do Casal da Misarela, Coimbra" - Colecção "Gaiteiros Tradicionais" nº6 - 
Mário Correia / Sons da Terra, 2000
Fotos: Mário Correia / Sons da Terra e APEDGF
 


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